A minha meditação não vem do silêncio. Vem das mãos ocupadas.
Sempre que tentava meditar (quieta, parada, supostamente só a focar-me na respiração), a minha realidade era outra: em vez de esvaziar, afundava-me ainda mais na mente. Perdia o foco na respiração e já estava a pensar na refeição do dia seguinte, que devia era estar a caminhar, ou a remoer situações passadas que ainda não tinha bem resolvido.
Num momento em que devia libertar, ficava ainda mais agarrada.
Hoje entendo que a meditação não é só focar na respiração, é também abraçar o que se passa na mente, aquilo que ainda pesa e precisa de ser trabalhado. Mas, sinceramente, esse trabalho faço-o em terapia, não sentada de olhos fechados.
A minha meditação, o momento em que realmente me desligo do mundo e das rotinas, acontece quando entrelaço as mãos entre fios e cordas.
A minha meditação é entrelaçar as mãos entre fios e cordas.
Foi precisamente num dos momentos mais desafiantes da minha vida, quando percebi que precisava de me libertar de um trabalho que sentia que me preenchia, mas que a burocracia estava a tornar insustentável (e aceitar isso custou, sobretudo depois de tanto ter lutado e estudado para lá chegar), que encontrei, no meio de rolos de fio, madeira e cordas, uma paz difícil de pôr em palavras.
Sinto o tempo a abrandar. A respiração fica mais lenta. Há um prazer estranho na tensão de criar o nó, e depois no desfazê-lo quando não sai como quero… A paciência que isso exige é, no fim, o que torna a peça terminada tão recompensadora.
O ritmo dos nós, o foco em acompanhar a peça a nascer, faz-me perder a noção do tempo. Lembra-me muito a infância, aquelas tardes a brincar em que só dávamos conta da hora quando nos chamavam para jantar.1
O tempo que tanto queremos atingir, às vezes só se alcança através do fazer.
Foi com esta descoberta que percebi: a meditação, o desligar do tempo que tanto procuramos, também pode vir do fazer, de processos ritmados que nos mantêm focados enquanto o tempo passa sem sentirmos. A isto chamo mindfulness ativo.
Esta ideia ganhou ainda mais força quando comecei a ver o mesmo a acontecer nas minhas oficinas presenciais. Sessões de 3 horas que muitas alunas descrevem como “o tempo que passou num ápice”. Outras passam a oficina em silêncio, tão concentradas que se esquecem que estão numa oficina, e no final dizem: uau, já não me lembrava do que era o tempo voar assim. Uma delas resumiu tudo numa frase: “o relaxamento que me proporcionou.”
Porque o toque com as mãos, a construção da peça, o momento de a terminar… Isso é uma realização que só tu podes guardar para ti.
Se também sentes que a tua cabeça só descansa quando as mãos estão ocupadas, e nunca soubeste bem como chamar a isso, talvez seja hora de experimentares.
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1 Artigo sobre “Teoria do Flow, pesquisa e aplicações” de Mihaly Csikszentmihalyi, traduzido por Marina Gomes: https://comciencia.scielo.br/pdf/cci/n161/10.pdf

